A bunda

bundas, a revista

Resolvi escrever essa crônica depois que percebi o quanto às pessoas falam, cantam, documentam, olham, admiram, idolatram e até escrevem sobre a bunda. Afinal, de que vocês acham que Vinicius de Moraes estava falando quando disse: “…é ela a menina/ que vem e que passa,/ num doce balanço/ a caminho do mar”. Esse balanço é exatamente o andar voluptuoso e suave que causa a bela oscilação nas partes posteriores.

É uma parte tão importante da anatomia humana (afinal homem também tem bunda) que as pessoas gastam uma quantidade enorme de energia exercitando-a, para tentar aumentá-la e endurece-la, ou simplesmente, inventando novos nomes para ela: glúteos, nádegas, bumbum, popozão, rabo, traseiro, anca, derrière e por aí vai.

Antigamente a bunda era só uma parte macia do corpo que nós usávamos para nos sentar, ou um palavrão; insulta-se as pessoas supostamente covardes, ou moles, comparando-os com essa parte do corpo colocada no aumentativo: “seu bundão!”.

Hoje, nada é tão simples assim. E ser comparado à bunda, dependendo do contexto, pode ser até um elogio. A bunda é muito mais que isso: é capa e nome de revista, é tema de pesquisa cientifica (como acabar com a celulite do bumbum, por exemplo), já deu origem a aula de ginástica só para melhorá-la, pode-se colocar silicone para deixá-la mais avantajada e, pasmem, é até um meio de vida, deveras lucrativo. Tornou-se objeto valioso que merece até seguro especial. Se mais precisar dizer, vale a afirmação: ela é preferência nacional.

Foi-se o tempo que para ter sucesso ou para conquistar um homem a mulher tinha que ser inteligente, prendada ou simplesmente bela. Hoje basta ter um belo traseiro para conseguir um casamento ou uma carreira de sucesso. Aí você me pergunta: _ E o rosto? A Marilyn Monroe, a Audrey Hepburn, a Martha Rocha e outras tantas tinham um rosto lindo, carisma, talento? E eu responderei: _ Não importa … é só para a bunda que se olha, sem rosto, sem carisma, sem talento, sem cérebro… só uma bunda que requebra e pronto você pode se transforar em mulher fruta e ter uma carreira, ter fama e até um maridão bobão para pagar as suas contas.

Essa parte mítica da anatomia feminina logo acabará virando uma religião ou quase isso, homens e mulheres veneram a bunda uns dos outros, e a aritimética dessa “adoração” não é tão simples como: quanto maior melhor. É bem mais complexa. Ela deve ser grande sim, mas não enorme, redondinha e bem durinha, além de outros predicados.

E pode-se até classificar os tipos de bundas, que andam por aí. Sem  pretensões cientificas, vocês querem ver:

óInsignificante – é aquela que não representa muito na anatomia da criatura, e obriga a pessoa ou a tentar melhora-la ou disfarçar o defeito chamando atenção para outras qualidades;

ó Assustada – é a bunda para dentro, parece que levou uma reguada da tia da escola, se assustou, se escondeu, e não saiu mais de lá;

ó Deprimida – está sempre olhando pra baixo, caída e triste, esta pode condenar sua pobre dona ao insucesso;

ó Falsa – é a bunda deprimida que dentro de um super-jeans fica até bonita;

ó Turbinada – é a que nasceu insignificante ou assustada, mas colocou um silicone e hoje saí por aí rebolando como se tivesse nascido bela _ só não pode tomar injeção;

ó Bebel (famosa garota de programa interpretada pela Camila Pitanga) – não é um tipo de bunda, neste caso sempre muito bem feita, mas o conjunto da obra que é invejável e passeia displicentemente no nosso litoral, é escultura da miscigenação no corpo da mulata brasileira: cintura fina, ancas largas, bumbum sempre redondinho olhando pra cima;

ó Fitnees – aquela que só passou a ser boa depois de muita malhação. Ela é uma resposta malcriada a lei da gravidade;

ó Natural – já nasceu linda e redonda feita assim por Deus;

ó Laranja – o nome já diz tudo, sem comentários.

ó Protagonista – o centro da trama, onde ela chega chama toda atenção pra si;

ó Coadjuvante – até que se nota, mas não é o centro das atenções.

ó Mac’donalds – é rápido e fácil de comer… (neste caso mais a dona né? a bunda coitada não tem culpa da dona que tem);

ó Preta Gil – não importa o formato ou o tamanho, mas tem personalidade e muita autoestima, e encanta muito bonitão por aí.

Existem outras classificações, mas seria impossível listar todas.

Eu ouso dizer que a visão da lei gravidade mudou por causa do bumbum, nestes novos tempos; a gravidade é aquela força que puxa sua bunda para baixo, só isso. É por causa dela que tem tanta gente por aí gastando dinheiro, tempo e energia, brigando e tentando enganá-la.

Pensando bem, tudo é meio cômico, mas também é triste. Afinal algumas pessoas _ muitas pessoas_ deixaram de admirar o talento, a opinião, a inteligência, o caráter, a beleza da alma e do coração, ou mesmo a pessoa como um ser inteiro, para admirar pedaços de carne, feito numana vitrine de açougue. Pedaços frescos de carne morta para serem consumidos com voracidade. E alguns ainda chamam isso de cultura, fala sério!

Enquanto isso, posso afirmar que continuarei acreditando que a bunda é uma parte anatômica, macia, apropriada para sentarmos, e nos proporcionar descanso, conforto para uma boa leitura, uma conversa agradável, para assistirmos um bom filme, a uma peça interessante, relaxarmos um dia de trabalho (ao menos no meu caso). A bunda ajuda a mente, a alma e o coração.

Então o que devemos fazer? Esperaremos as mulheres frutas entrarem para os anais da nossa história, e que sejam elas os modelos de toda uma geração de bundas profissionais que estão por vir. E que Deus nos livre da m… que está por vir.