É a vó!!!!

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Li, esses dias na internet, um texto que dizia “Vovó de 79 anos desaparece de asilo para fazer a  primeira tatuagem”. Achei, interessante porque dizem que a velhice é a segunda infância, mas no caso dessa senhorinha “vida loca”, talvez seja a segunda adolescência. Na verdade havia pensado nisso há algumas semanas, quando compareci a rotineira consulta à dermatologista. Não nego procuro me prevenir contra câncer de pele e das ruguinhas podem aparecer com a idade. Utilizo-me de um ácido aqui, um creminho para os olhos ali, enfim, ponho em campo  minhas parcas armas na guerra contra a passagem do tempo. Incrível como tentamos controlar o incontrolável; afinal, existem três coisas que não podemos controlar: a morte, o outro e o decurso implacável do tempo.

O arsenal disponível para essa guerra é ilimitado: vai desde dietas e vitaminas a cirurgias arriscadas e invasivas para esticar a cara. Nesse campo de batalha o bom senso é fundamental e aquela máxima de “menos é mais” se aplica muito bem. O mundo das celebridades está cheio de exemplos de como os exageros em procedimentos estéticos podem ser desastrosos. Tem gente que morreu em cirurgias plásticas e também os deformados pelo botox como a Meg Ryan, que era lindíssima e agora parece o Coringa. Assim, perde-se a beleza do rosto, do corpo e a serenidade de uma velhice altiva de quem já consolidou a paz e a estima dentro de si.

É um fato que a noção de envelhecimento mudou muito nas ultimas décadas. Quando criança a imagem que tinha dos idosos era bem diferente do que vejo hoje: eram pessoas de cabelos brancos, andando bem devagar e usando meias com sandálias. Os vovozinhos sentados na praça lendo jornal ou jogando baralho e falando com saudades da Era Vargas, como meu Vô Durval. E as vovozinhas que ficavam na varanda fazendo tricô ou cozinhando coisas gostosas. Nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, imaginei uma daquelas velhinhas doces saindo por aí para fazer uma tatoo.

As coisas mudaram. O pessoal da terceira idade está mandando ver nos exercícios no calçadão e nos esportes radicais, lendo jornais no tablet, jogando xadrez virtual, alguns presenteando o mercado de trabalho com sua sabedoria e experiência. Eles recusaram drasticamente o paradigma anterior e estão se aventurando por aí pulando de paraquedas, voando de parapente, deixando as sandálias de lado e usando botas de trekking, literalmente colocando o pé na estrada ou no mato (por favor, sem duplo sentido!).

A galera da “melhor idade” redescobriu a vida, levantou-se das cadeiras de balanço e começaram a mexer o corpo em nome da qualidade de vida (olha o Tio João Henrique, que corta o Alegre todo de bike para garantir que será um oitentão com boa saúde e gatíssimo). Muitos se rebelaram contra a ideia de que são pessoas paradas, cansadas e saudosista e estão botando para quebrar em bailes, cruzeiros e excursões especializadas neste publico. E, atenção herdeiros, foi-se o tempo que eles guardavam toda a grana da aposentadoria para deixar para os filhos. Com toda razão eles estão torrando a aposentadoria com “personal trainer” e viagens, aproveitando o tempo livre e a paz que conquistaram e, numa boa vão curtindo a vida com força.

Todo o meu respeito e admiração para os velhinhos que estão malhando, dançando, curtindo e colocando uma alegria extra na beleza poética de envelhecer com dignidade e saúde. Mas também há beleza naqueles que aceitam a passagem dos anos com a resignação e o orgulho de quem sabe que não tem mais nada a provar a ninguém (alias, nenhum de nós devia ter) e que a vida lhes deixou mais conscientes e generosos com as falhas alheias e as próprias. E tem a melhor parte dessa fase da vida, ao menos na minha opinião, as avós.

Dizem por aí que Vó é mãe com açúcar, a frase seria mais verdadeira se dissessem que vó é mãe com leite condensado. Eu vi e vejo as minhas avós vivendo a velhice com muita graça e doçura.

A minha Vó Mariinha era uma senhorinha muito linda, ela teve 15 filhos (isso mesmo 15, naquela época não tinha TV nem internet), perdeu 3 ainda novos, e ainda acolheu e criou um irmão, alguns sobrinhos e netos. Apesar de não ter estudado (o pai dela acreditava que se estudasse escreveria cartas para os namorados), sempre incentivou os filhos a estudarem e buscarem novos horizontes. E diferente da maioria das mulheres da sua geração, não encarava o casamento das filhas como uma carreira, pelo contrario, queria todas formadas e boas profissionais. Eu me lembro dela já com dificuldades para se locomover, estava sempre sentada na cadeira de balanço da varanda. Tinha horror de bebida, mas sempre guardava uma pinguinha para o papai (hoje ele vê como a vó tinha razão!). Ela achava que todo mundo era bom e dizia que não sentia gosto de nada, mas sempre reclamava que o adoçante era amargo ou que a comida estava sem sal. E, mesmo com as filhas já casadas, só as chamava de meninas. Ela aceitou os sinais do tempo com orgulho e dignidade, como um soldado que ganha uma medalha de honra e sabe que a merece, talvez porque soubesse em seu intimo que seu dever fora cumprido.

Há ainda a minha vó Mercedes, uma menina de 97 aninhos, muito teimosa. Ela criou apenas 09 filhos e uma neta (e que Deus a TV e o controle de natalidade). Foi mãe de leite de alguns e ajudava a abastecer o banco de leite do hospital de Alegre. Muito religiosa, enquanto podia ia a missa todos os dias, agora reza alguns rosários todos os dias por todos os filhos, netos, bisnetos, parentes e amigos. Quando eu era criança ela coava o feijão para que eu comesse só o caldinho com o angu mais gostoso do mundo. Lembro muito do fogão de lenha e do cheirinho bom da cozinha. Ela estava todo o tempo ali e sempre fazendo comida boa; podia ser só uma sopinha de macarrão ou o bife famoso da vó. Mesmo depois de adulta, antes de viajar para o Alegre, eu passava dias sonhando com a comidinha da Vó Merça, o bifinho passado na hora e o bolinho de chuchu. Hoje ela não cozinha mais. Muito travessa ela caiu e machucou as costelas, mas já está firme e vigilante no comando de seu reino. Minhas  tias tentam com muito amor reproduzir as receitas dela, principalmente o bolinho que adoro, mas ninguém tem o tempero da D. Mercedes.

É fato que todos temos uma certa resistência em aceitar os efeitos do tempo sobre nossos corpos, principalmente em nossos rostos. É bom tentar prevenir e fazer a juventude se estender um pouco mais. Mas deve-se entender que é uma batalha fadada ao fracasso, por mais que corramos o tempo fatalmente nos alcançará. Ademais, a única opção restante para quem não quer envelhecer de maneira nenhuma é morrer jovem e ser um belo cadáver. Não, obrigada! Prefiro a vida e não me importo nem um pouco com a aparência do meu rosto no meu funeral.

Este mês em que se comemora o dia da avó vamos olhar com mais carinho para as pessoas que chegaram à segunda infância e dedicar-lhes mais respeito por estarem vivendo essa fatia bonita da vida. De minha parte espero que eu chegue lá. Creio que serei uma velhinha serelepe, dessas bem “vida loca”, quem sabe entre os livros, aventuras, viagens e escritos (sim, espero escrever até morrer) eu não fuja para fazer a minha primeira tatuagem. Afinal, o meu pai velhinho e careta, faz cara feia até hoje toda vez que eu toco nesse assunto.

P.S.: Publicada em agosto de 2015.

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