Vai um remedinho aí?

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Segundo o dicionário hipocondríaco é quem está sempre preocupado com a própria saúde, ouso discordar, a observação contínua me fez perceber que o hipocondríaco é preocupado com a doença ou doenças que julga ter.

Definida como transtorno psicológico, a famosa “mania de doença” é por demais comum nos dias atuais, e com a facilidade de adquirir medicamentos quase todo mundo anda com um arsenal farmacêutico na bolsa a ao sinal do mais leve incomodo se automedicam (ou medicam o colega ao lado: _ Vai um remedinho aí?) podemos vê-la em varias níveis de gravidade e em inúmeras pessoas de nosso convívio.

Conheço alguns casos bem graves, como uma amiga querida, que quando vai ao shopping vai primeiro a farmácia, deixando as demais lojas de lado. Ela lê pesquisas médicas na internet e cria novos hábitos de vida, supostamente para se manter longe doenças, à pouco tempo leu numa pesquisa que beijar na boca aumenta o risco de contrair meningite e ficou meses sem “pegar” ninguém. Faz teste para DST com uma frequência absurda sem ter vida sexual ativa e quando sabe de um novo exame, pra qualquer coisa, vai lá e faz, mesmo que precise pagar do próprio bolso, e pior, obriga os namorados a se submeterem a uma bateria de exames e depois não confia nos resultados.

Alias, ela está muito bem acompanhada, varias “celebridades” apresentam esta mania como Rei Henrique VIII, Charles Darwin, Mikael Jakson, Cameron Dias, Toquinho (dizem que por onde anda leva um saquinho de remédios consigo), já li que a atriz americana não toca em maçanetas de locais desconhecidos e que lava a mão incontáveis vezes ao dia para se livrar dos germes, e o que falar do Rei do Pop que chegou a usar mascaras (e obrigou os filhos a fazerem o mesmo) com medo de qualquer tipo de contaminação, mas tudo bem se você faz isso e é milionário, famoso ou estrela de cinema é exótico, para os demais mortais é esquisitice mesmo.

Um outro fato curioso sobre isso é que quem tem essa “mania” se acha médico, faz diagnóstico, exame físico (hoje em dia qualquer um tem “aparelho de aferir a pressão” e aquele outro que testa o nível da glicose em casa… deve ter quem ache divertido ficar se examinando) e receita remédio para si a para os outros, neste ultimo caso com comentários vívidos sobre a sua eficácia e efeitos colaterais, afinal todo bom hipocondríaco já provou algumas dúzias de medicamentos, tem a lista dos 10 melhores antibióticos.

É aquele tipo de pessoa que quando recebe do médico a feliz noticia de que não está doente se revolta, chama o médico de incompetente e louco, procura uma segunda, terceira ou décima sexta opinião, mas jamais se convence que está saudável, meu Tio Dr. João Henrique já deve ter visto muito isso. Haveria menos desperdício de energia se o primeiro médico pudesse receitar logo um placebo qualquer e deixar o “paciente feliz” com sua doença imaginária e pílulas de farinha.

Há ainda aqueles que transferem a obsessão para os filhos, a criança perde parte da infância porque a mãe “neurótica” diz que a pobrezinha não pode tomar vento, nem sol, nem sereno, ou gelado, não pode se sujar por causa dos germes, nem comer nada que não esteja lavado e esterilizado por causa dos vermes (e assim se cresce sem comer sequer uma jabuticaba direto do pé) nem pode se machucar, porque se chorar demais pode “engolir o folego”, seja lá o que isso for, ou seja não pode brincar, não pode viver a infância como se deve com os joelhos esfolados, a roupa suja de terra e só perdendo o folego de tanto correr dos coleguinhas, e daí se tiver um bicho de pé, ou lombriga, ou um resfriado as vezes, tem remédio para isso, mas não tem para tempo perdido.

Se forçamos a imaginação podemos ver em que tipo de adulto essa criança se tornará, depois de terem lhe infligido uma farta lista de fraquezas e deficiências, fazendo-a crer numa fragilidade extrema e inexistente, será um adulto fresco, com medo e nojo de tudo, mais uma farmácia ambulante, degustador de comprimidos e leitor assíduo de bulas, cheio de dores fantasmas pelo corpo que pulam de um membro a outro, alergias imaginárias e resfriados eternos, aquele tipo de pessoa que tem uma dorzinha na lombar a acha que está com falência renal.

Francamente, sempre que vejo alguém assim sinto muita pena, talvez porque seja triste pensar que tem gente que toma posse de doença quando tem tanta coisa melhor para se apoderar, ou porque seja chato demais quando o único assunto de alguém são doenças, sintomas, exames e remédios, quando tem tanta coisa melhor para se falar. Ou simplesmente, porque creio que todo hipocondríaco é pessimista, vê um lado ruim de tudo, alias só o lado ruim: do tempero da comida (problema nos rins ou no sangue ou…), da terra do jardim (vermes/germes), das pessoas do mundo, da brisa do mar, até do sol, falarão “causa câncer de pele”. Direi e daí? Ele dá luz e vida a tudo que há de lindo no mundo e, desde que inventaram o filtro solar, não causa nem queimadura de segundo grau, não vou deixar de fazer o que me dá prazer, afinal a doença futura é uma possibilidade, mas a vida e o presente são uma certeza.

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1 Comment

  1. Nós acabamos nos automedicando já que ao irmos em posto médico eles pouco nos dá importância quando estamos ali, já começa pelo atrasado em chegar para iniciar o atendimento, depois o pouco caso com o paciente, então para que levantar as 5:00 da manhã esperar até as 10:00 para ser atendida se no máximo que irá lhe dizer é que você tem uma virose, não é verdade?!

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