Me devolve meus 10 reais…. pão duro irrita!

Em uma dessas noites frias de julho enquanto eu me revirava sob as cobertas, tentando em vão e mais uma vez lutar com a insônia (inimiga antiga), inúmeros pensamentos e preocupações se revezavam em minha mente. Então, finalmente, desisti de tentar dormir, fui a cozinha preparar um bom chá. Fervi á água, coloquei o pequeno saquinho na água escaldante sentindo o cheiro doce o hortelã se espalhar pela cozinha. Pensei, então, um dia devo escrever sobre a insônia, peguei o sachê de adoçante rasguei-o, mas antes de derramá-lo no chá comecei a rir, rir muito e alto. Lá estava eu sozinha, de pijama, no meio da noite, parecendo uma louca, morrendo de rir na minha cozinha.

O que aconteceu foi que quando apanhei o sachê de adoçante me lembrei de um velho conhecido muito pão duro que sempre que eu encontrava em um restaurante ou cafeteria. Ele sorrateiramente surrupiava todos os sachês de adoçante, açúcar, sal, maionese e o que mais houve em cima da mesa, era uma situação embaraçosa, mas hilária também.

Todo nós conhecemos alguém com esse “defeito” ou característica, um unha de fome, aquela pessoa que parece que tem um escorpião no bolso. Atentem, existe uma diferença enorme entre o pão duro e o duro, o primeiro tem dinheiro e não quer gastar nem consigo mesmo, já o segundo, bem o nome já diz tudo, é aquela pessoa que tem mês demais para pouco salário.

A pessoa sovina incomoda, irrita e às vezes até revolta quem está perto. Eu tive um namorado assim e conheço um punhado de gente do tipo “Senhor Scrooge”. Acredite, é difícil de aturar, aquela desculpa esfarrapada de “esqueci a carteira” pela centésima quinta vez. Um dia deixei, só de raiva, meu ex-namorado com fome, me olhando lanchar com meu afilhado. Nada lhe ofereci. Afinal nesta época eu era estudante e ela já trabalhava. Que sacanagem!

Percebi que todo mundo tem uma ou duas manias de muquirana. Entre elas colocar água no shampoo ou detergente para durar mais; fazer aquele bolinho com o arroz de ontem; estacionar fora do shopping para não pagar o estacionamento; esperar uma boa liquidação para comprar aquela peça que você está “namorando” na vitrina a um mês; deixar o carro “na banguela” na descida para economizar gasolina; pegar aquele finzinho do sabonete (que tá fininho como um papelão e nem dá espuma mais) derreter e juntar com outros ou usar para lavar a roupa; transformar aquela camiseta velha em pano de chão (isso está mais para Lei de Lavoisier, igual aquele mexidão delicioso com tudo que sobrou do almoço). Mas apresentar uma ou duas manias não te qualifica como pão duro, tem todo um estilo de vida, uma teia de desculpas para não gastar nem um tostãozinho.

Eu me lembro de uma amiga, que sempre ao sairmos, no final da noite, ela sacava de uma calculadora e dividia a conta até os últimos centavos, não importa se haviam duas ou dez pessoas à mesa. Nunca entendi isso e sempre me pareceu grosseiro, quer dizer pagar alguns centavos a mais que o amigo ao lado, vai mesmo te deixar mais pobre? Mesmo quando a noite era ótima cheia de risadas, “causos” e conselhos a magia do momento caia por terra diante da maldita calculadora. Isso me deixava revoltada. O curioso é que a mão de vaca sempre tinha as moedinhas na bolsa para não correr o risco de deixar nem cinco centavos para ninguém.

Convivendo com estas pessoas notei que alguns comportamentos são ilógicos, mas constantes e sempre “justificáveis”, como por exemplo: coar o café duas vezes com o mesmo pó (isso eu já vi!); usar camisa furada e dizer que é porque gosta; jantar antes de sair pra não ter que pedir nada no barzinho e não aumentar a conta; escolher o presente mais ordinário e barato da loja e dizer que é mais singelo; dar um toque no celular alheio só pro outro retornar a ligação (mesmo com promoção da operadora de “custo zero na chamada”); comer e beber até passar mal nas festas só porque é boca livre; sair da mesa na hora que chega a conta rezando para que algum gentil desprevenido pague tudo; não ligar o ar condicionado do carro, no verão abrasador de Vitória para gastar menos gasolina; ou deixar o carro ficar na reserva uma semana e depois colocar R$ 10,00 no tanque; emprestar 10 reais a alguém e já no outro dia sair cobrando como se fossem 10 milhões; “filar” comida todo dia na casa alheia (poxa, ou a criatura faz a própria comida ou vai ao restaurante, né?); nunca andar com a carteira ou o cartão de crédito para que os outros paguem sozinhos e por aí vai.

Eu imagino que lendo isto cada pessoa consegue lembrar de um pão duro incorrigível, aquele mesmo que  toda família tem, é engraçado sim até porque a maioria das “economias” não fazem sentido algum, como uma pessoa que conheço que toma banho frio no inverno, mesmo pagando a taxa mínima de luz todo mês. Será que faria diferença um banho quente? Ou uma tia velhinha que deixa todas as luzes apagadas para não gastar energia, com risco de cair e tropeçar, economia em detrimento da saúde e segurança? Ou mesmo o hábito, já citado, de afanar saches de adoçante, cadê a grande economia? E com o tempo cafeteria passa a oferecer só o adoçante liquido. Outra é a mania de usar roupas velhas ou de comprar a peça mais baratinha mesmo que o caimento seja péssimo ou a qualidade do tecido seja baixíssima, fica feio demais e o prejuízo a imagem é imensamente maior que o do bolso.

E reparem que o verdadeiro mão de vaca não admite se desfazer de nada que tem, mesmo que a troca seja vantajosa, mesmo que o objeto esteja inutilizado. São acumuladores, se apegam até a embalagens vazias, ou tem tanta usura para consumir um produto que por medo de gastar, por fim expira a validade sem aproveitamento. Eles se apegam a objetos como se fossem pessoas. Alguns chegam ao ponto de serem miseráveis com o dinheiro alheio, principalmente dos pais, uma pessoa que conheci desencorajava os pais a viajarem e a gastarem com carros caros, para sobrar mais para a herança, isso é de doer.

E, ainda, tem aquele tipo de somítico, que tenta tirar vantagem de toda e qualquer situação, seja para ganhar uma “jantinha” grátis seja para tentar superfaturar em qualquer transação financeira. Esse é o pão duro mal caráter, talvez o ultimo estagio desse cancro espiritual, em que se sacrifica a honra, o brio, o inestimável por uns trocados a mais, é aquela pessoa que quando recebe o troco a mais em qualquer lugar fica tão feliz que parece que encontrou o santo graal.

Se você observar bem os avarentos nota-se que muitas atitudes parecem involuntárias, é como se a pessoa vivesse no “modo automático” da mesquinharia, algumas coisas simplesmente não farão diferença no saldo do mês, como afanar o adoçante, ou colocar só aquela mixaria de gasolina no carro, mas ele continua. E se alguém critica, fica bravo, vira a cara e se acha cheio de razão com uns trocadinhos a mais e uma amizade a menos. Aparentemente essa obsessão por acumular/guardar dinheiro está mais ligada à sensação de não se desfazer de bens do que a economia em si, talvez dê a pessoa uma sensação segurança ou de poder, por conseguir controlar alguma parte de sua vida.

A avareza é a filha predileta do egoísmo, a consequência visível e feia da incapacidade de se olhar para qualquer lugar que não seja o próprio umbigo e da crença estupida de que cada um deve cuidar somente de si mesmo e o resto do mundo que se dane. É mais um fruto podre da cultura medíocre de tentar levar vantagem em tudo, que tenta a todo custo matar o altruísmo. Não há como inserir momentos, amizades ou demonstrações de afeto no cômputo bancário. Fazer isso é diminuí-los, reduzir sentimentos a valores é ofensivo, por isso ninguém gosta de convidar o pão duro para sair.

E se nada disso bastar, para que os unhas de fome de plantão comecem a refletir: a usura é um dos sete pecados capitais, uma passagem sem bagagem para o “mármore do inferno” e como diz o dito popular: “caixão não tem gaveta”. Então, meu caro mão de vaca, tudo que você guardou, se privando de vários prazeres e irritando várias pessoas, ficará aqui de herança para os parentes que você critica por serem gastadores. E por fim, na minha humilde opinião, se for para pecar, por favor, pequem pelo prazer, pela diversão, pelo gozo, e não pela falta dele, isso te poupará muito… arrependimento.

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