Solidão

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Uma vez Álvares de Azevedo disse que “a solidão tem segredos amenos para quem a sente”, mas pensando nisso hoje eu me pergunto: _ Que segredos amenos são esses… ?

A solidão não é amena, talvez ela seja sutil hoje em dia, mas amena, nunca.

Pessoas solitárias não são amenas, não parecem ouvir segredos amenos no meio de uma terça-feira ociosa e entediante. Eu entendo bem isso.

Para começar, todo solitário é egoísta, exigente demais consigo mesmo e com os que o cercam. Isso por que ele passa tempo demais ouvindo seus próprios pensamentos, enrijecendo seus conceitos e valores, e conclui está sempre com a razão. Não raro sente-se injustiçado.

O solitário também é rabugento. Ele se habitua a repetir, incansavelmente, suas manias; como geralmente ninguém protesta ou reclama, de tanto repetir suas cantilenas, acaba por julgá-las necessárias.

Eu posso dizer tudo isso com propriedade e conhecimento de causa. Sempre fui uma solitária, e descobri muitas nuances desse estado peculiar em que a maioria das pessoas se encontram e sequer se dão conta.

Descobri, por exemplo, que a solidão nos torna narcisistas. Quem é sozinho raramente olha para os outros; é egocêntrico, vê para dentro de si. Se apaixona pelo espelho e espalha fotos suas pela casa, por que, fugindo da realidade do mundo desagradável, adora a visão do próprio rosto. Só enxerga o que lhe dá prazer. Isso explica o que eu disse acima e nos leva a Narciso, o solitário se acha lindo, e sendo assim, seu parceiro também deve o ser, para estar a sua altura.

Este foi o grande segredo que descobri. A  solidão se alimenta de nossa vaidade, de nossa prepotência. Ela nos faz acreditar que nossa companhia nos basta, que ninguém é bom o suficiente para nós. E, assim, inventamos desculpas esfarrapadas para nos mantermos neste claustro, como: “Não tenho tempo para essas coisas” ou “Minha profissão é mais importante agora” etc etc etc.

Mas nem tudo é ruim, nessa relação controvertida: a solidão não é aconchegante nem quente, mas é confortável. Há uma doce segurança por trás desse castelo de muralhas enormes que construímos à nossa volta, há um mundo próprio e sossegado, um lugar livre de decepções ou julgamentos alheios. Claro, sem arroubos de felicidade ou entusiasmo, mas principalmente, sem dores atrozes, a salvo daqueles que nos machucam.

E por fim, o solitário é um covarde, um medroso escondido atrás dos muros altos e sólidos que ele ergueu, acomodado em sua paz fictícia, acreditando ser uma fortaleza.

O tempo implacável, transforma essa pseudo segurança em tédio, em tristeza, em vazio. E, esse mesmo tempo, brincando com nossas certezas vãs, nos mostra que se alguém consegue transpor essa barreira (esse muro que também o tempo corrói), não temos mais defesas por que não nos habituamos a nos defender, nem a nos levantar após a queda, nem curar nossas feridas, nem a suportar nossas dores. Simplesmente porque não tínhamos de quem se defender, não havia feridas, não havia dores, nem quedas.

O destino não respeita os muros que construímos, nem nossa opção pela solidão. A vida nos impõe seu próprio curso, e a melhor saída para os covardes é ficar em cima do muro, assistindo a tudo de camarote.

Aos tímidos e solitários, resta, portanto, a difícil decisão de permanecer neste autoexílio ou sair dele e encarar (às vezes a tapa) o caminho. De qualquer forma teremos que renunciar a algo que nos é muito caro, ou a segurança do nosso castelo ou a beleza da caminhada!

12/04/2007

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