#CriminalizaSTF #Écrimesim

Vou aproveitar o julgamento polêmico da ADO 26 no STF para postar esse texto que escrevi para o Jornal A Palavra em junho de 2015, quem ler vai ver que à época eu acreditava que as coisas iriam melhorar, mas acho que hoje eu escreveria quase a mesma coisa ou talvez pior.

O ARCO ÍRIS NO DIA DOS NAMORADOS

O mês de junho veio e quase se foi e com ele o dia dos namorados, um dos dias mais românticos e comerciais do ano, também dia de postar declarações de amor melosas no Facebook e fotos de presentes. Declarações públicas de afeto e presentes são o melhor afrodisíaco para mulheres de baixa autoestima e os homens sabem disso. Então mesmo que a relação não esteja lá muito boa (comemora-se a data), seja para mostrar ao mundo o quanto se está “feliz”, seja para ganhar uma “rapidinha” ou sexo bêbado da parceira zangada. Parece mesmo que o amor está no ar e o sexo por toda parte. Mas de todos os meses de junho que já vivi este talvez seja o mês dos amores e “sexos” mais polêmicos.

Então enquanto as boas moças e famílias tradicionais estampavam os seus presentes nas redes sociais. Esta colunista, nada tradicional, apreciava uma encorpada cerveja artesanal ouvindo o Jimmy Page e meditava sobre a coluna, mas resisti ao desejo de escrever sobre as aventuras, a diversão e alguns outros benefícios da vida de solteira de alguém que não almeja o titulo de boa moça e que não é tradicional. No momento não me parece uma boa idéia, quem sabe um dia, quando o meu pai idoso  não for o meu primeiro revisor.

Também meditava sobre o amor, para ser mais exata sobre todo ódio que o amor vem gerando. Como diz a música toda forma de amor é justa. Infelizmente, não é bem assim. A sexualidade considerada não convencional desperta a ira e a violência em alguns. Um bom exemplo disso foi a reação negativa e exagerada ao inocente comercial do Boticário para o Dia dos Namorados, que mostrou todos os tipos de casais trocando presentes na data romântica. Logo a internet se encheu de comentários agressivos e homofóbicos e até uma proposta de boicote a empresa. Sinceramente, não vi o porquê de tanto barulho, o anuncio foi sútil, leve e muito elegante.

Cá entre nós, ultimamente, esta questão tem sido motivo de polemica todo dia, basta um beijo gay entre senhoras na novela, para aparecer duas dúzias de “defensores da família tradicional” para profanar nossos ouvidos com seus comentários intolerantes. E eu? Vou continuar comprando no Boticário.

Ainda no mês de junho, entre flores e juras de amor, tivemos a polêmica da transsexual que desfilou na Parada do Orgulho Gay em São Paulo “crucificada”, numa alusão inconfundível a imagem de Jesus. Pronto! Bastou isto para que explodissem agressões verbais e até ameaças de morte, via internet, a pobre moça, que explicou depois que assim como Cristo centenas de homossexuais inocentes são humilhados, espancados e mortos todos os dias. Nem vou comentar a hipocrisia daqueles que se dizem cristãos serem os primeiros “apedrejá-la” (será que todos tem a alma imaculada?).

É claro que não há leveza na imagem, pelo contrario, é bem forte. Mas para chamar a atenção para grandes causas é preciso fazer muito barulho, no ano passado o Brasil liderava o ranking mundial de crimes de ódio contra a comunidade LGBT, segundo dados da International Lesbian and Gay Association (ILGA). Não é isso que a arte deveria fazer nos emocionar de alguma forma, nos sacudir de nossos marasmos, nos arrancar do torpor cotidiano para refletirmos.

Se achei a imagem forte? Sim. Ofensiva? Não. Eu entendi a intenção da artista tentando mostrar as injustiças cometidas todos os dias. Talvez sua intenção fosse mostrar que assim como fizeram com Cristo nós assistimos a isso e continuamos calados, não protestamos, não nos mobilizamos e muitas vezes sequer nos comovemos apenas deixamos o mal se alastrar. Enquanto ele não nos atinge, não é problema nosso, né?

Não vou tecer comentários sobre o quanto esse preconceito é burro e sem sentido, nem sobre discrepância absurda que há em lideres religiosos propagarem discursos de ódio. Até porque para mim a questão é muito mais simples: com quem as pessoas se relacionam ou com quem transam realmente não me importa, seja com pessoas do mesmo sexo, sexo oposto ou com ambos ao mesmo tempo. Nunca me importei com o que ninguém faz na privacidade do quarto, não é isso que delimita sua personalidade, nem sua maneira de viver e amar ou de lidar com as pessoas a sua volta. Em síntese, o que se faz sob os lençóis, desde que haja consentimento de todos envolvidos, não define o caráter de uma pessoa.

Creio que coisas ruins, preconceitos e crueldade normalmente nascem de atitudes que as pessoas julgam inofensivas. Frases supostamente ingênuas como: “menino não pode ser maricas”; “o fulano é um veadinho”; “eu adoro meu amigo gay, mas se fosse um filho meu, não aceitaria ou morreria de desgosto” e tantas outras cretinices. Pensem no efeito disso em mentes frágeis. A definição de padrões do que é ou não normal, certo ou errado passa de geração em geração para ouvidos de crianças que ainda não tem a personalidade formada, que acreditam que os seus parentes sabem o que dizem, e assim aos poucos se cria um ser monstruoso cheio de ódio e preconceitos que acabará agredindo o desconhecido só porque o acha diferente.

Só para deixar claro: homossexuais não precisam de aceitação, mas de respeito; apoiar seus preconceitos na religião não só a diminui como mostra a covardia de quem se esconde atrás de interpretações absurdas de um livro antigo; e, por fim, se o seu Deus me negaria o céu devido a como ou com quem eu faço sexo, eu não quero este céu.

Então eu espero que venham muitos meses de junho na minha vida, seja com romance e rosas ou com diversão e cerveja, não importa. Que nos próximos o mundo esteja um pouco melhor para que eu não perca a minha fé na humanidade. Espero que, finalmente, as pessoas entendam que diante dos inúmeros perigos que rondam aqueles que amamos todos os dias, tudo o que importa é a vida e que ela seja leve e feliz, independente do que ocorre no intimo de nossas vidas amorosas ou sexuais.

E para os “tradicionais” que insistem em suas opiniões tacanhas, preconceitos tolos, certezas vãs e ódios tóxicos eu lhes trago à oração que o Cazuza nos ensinou: “Vamos pedir piedade. Senhor, piedade! Pra essa gente careta e covarde.”

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Poesia para o Dia das mães (atrasado)

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Ontem foi o dia das mães e eu não postei nada porquê passei o dia curtindo a minha mãe (fotinho acima da mamãe e da minha vovó).

Mãe que é algo que Deus deve ter feito em uma manhã inspirada, porque de todos no mundo elas são as únicas que realmente tem super poderes: dissipam o medo com um colinho, saram dodóis com beijinho, afastam a insônia quando dormem conosco, fazem a melhor comida do mundo mesmo quando não sabem cozinhar. Então aí vai o que um de meus poetas favoritos falou sobre as mamães.

MINHA MÃE

Rio de Janeiro , 1933

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Fica a dica: Livro Crônica de uma morte anunciada do Gabo

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Eu amo realismo fantástico e amo mais ainda Gabriel García Márquez, acho que ele escreve de uma forma leve e fluida que torna a leitura muito prazerosa. Este livro, especificamente, foi lançado em 1981, é bem fininho e dá para ler bem rápido e é uma delícia. Com esse friozinho (por aqui estava 18º ontem) e um chocolate quente é uma ótiam pedida.

Ele fala da morte de Santiago Nasar logo nas primeiras linhas da história. Toda a cidade sabe quem quer matá-lo e o porquê, mas ninguém o salva e como isso acontece é a grande magia do Gabo no texto, pois ele sobrepõe varias versões e histórias sobre o ultimo dia de vida da vítima.

Viver é um salto de fé

Publicado em Junho de 2017 no jornal A Palavra.

O meio do ano chegou ainda com cara de fevereiro, com uma sensação de que as coisas não estão indo em frente, mas pelo menos parece que o friozinho chegou, com todas as suas delicias, sopas, caldos, chás, tudo quentinho e aconchegante. Os dias são mais curtos nesta época, mas nem por isso fica mais fácil acordar cedo, alias é muito difícil deixar o conforto quentinho da cama nos dias frios. E para sentir um pouquinho mais de frio eu viajei para São Paulo com uma amiga, e percebi primeiro que reclamar virou esporte e, segundo, desconfiar de tudo torna a vida muito difícil.

Vou explicar: quando eu quero chegar a algum lugar e não sei o caminho, eu simplesmente saiu perguntando de esquina em esquina até chegar lá. Desta  vez não foi assim. Sempre que eu não sabia para onde ir a minha amiga sacava o celular e ia procurar o caminho no google maps.

Esse processo, é chato, demorado, depende do sinal de internet e, ao menos para mim é confuso. Eu fui me informar com ela porque não perguntar o caminho às pessoas, ao que ela responde:”_ As pessoas dão informações erradas de propósito e poderemos ir parar em um local perigoso.” Por que? Perguntei. Alias vários porquês aqui. Porque alguém faria isso gratuitamente? O que ganhariam com isso? Porque desconfiar tanto dos outros? Porque tanto medo? Porque partir da premissa pessimista de que todo mundo é mal ou desonesto?

E não foi só isso. Ela memorizou o mapa das ruas mais problemáticas, vetou o meu concerto de musica clássica na Sala são Paulo (local perigoso), ficava olhando da janela do taxi procurando pessoas suspeitas, além de exibir o mapinha do celular sempre aberto, enquanto eu colocava a cara para fora da janela para ver melhor a paisagem, pior quando agarrava-se a bolsa quando identificava alguém “suspeito” do lado oposto. Às vezes a pessoa percebe, e até se ofende. E quase não fomos à missa no mosteiro. Tenha dó. Estávamos indo assistir a missa. Deus protege, principalmente os ingênuos e tolos como eu.

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É a vó!!!!

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Li, esses dias na internet, um texto que dizia “Vovó de 79 anos desaparece de asilo para fazer a  primeira tatuagem”. Achei, interessante porque dizem que a velhice é a segunda infância, mas no caso dessa senhorinha “vida loca”, talvez seja a segunda adolescência. Na verdade havia pensado nisso há algumas semanas, quando compareci a rotineira consulta à dermatologista. Não nego procuro me prevenir contra câncer de pele e das ruguinhas podem aparecer com a idade. Utilizo-me de um ácido aqui, um creminho para os olhos ali, enfim, ponho em campo  minhas parcas armas na guerra contra a passagem do tempo. Incrível como tentamos controlar o incontrolável; afinal, existem três coisas que não podemos controlar: a morte, o outro e o decurso implacável do tempo.

O arsenal disponível para essa guerra é ilimitado: vai desde dietas e vitaminas a cirurgias arriscadas e invasivas para esticar a cara. Nesse campo de batalha o bom senso é fundamental e aquela máxima de “menos é mais” se aplica muito bem. O mundo das celebridades está cheio de exemplos de como os exageros em procedimentos estéticos podem ser desastrosos. Tem gente que morreu em cirurgias plásticas e também os deformados pelo botox como a Meg Ryan, que era lindíssima e agora parece o Coringa. Assim, perde-se a beleza do rosto, do corpo e a serenidade de uma velhice altiva de quem já consolidou a paz e a estima dentro de si.

É um fato que a noção de envelhecimento mudou muito nas ultimas décadas. Quando criança a imagem que tinha dos idosos era bem diferente do que vejo hoje: eram pessoas de cabelos brancos, andando bem devagar e usando meias com sandálias. Os vovozinhos sentados na praça lendo jornal ou jogando baralho e falando com saudades da Era Vargas, como meu Vô Durval. E as vovozinhas que ficavam na varanda fazendo tricô ou cozinhando coisas gostosas. Nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, imaginei uma daquelas velhinhas doces saindo por aí para fazer uma tatoo.

As coisas mudaram. O pessoal da terceira idade está mandando ver nos exercícios no calçadão e nos esportes radicais, lendo jornais no tablet, jogando xadrez virtual, alguns presenteando o mercado de trabalho com sua sabedoria e experiência. Eles recusaram drasticamente o paradigma anterior e estão se aventurando por aí pulando de paraquedas, voando de parapente, deixando as sandálias de lado e usando botas de trekking, literalmente colocando o pé na estrada ou no mato (por favor, sem duplo sentido!).

A galera da “melhor idade” redescobriu a vida, levantou-se das cadeiras de balanço e começaram a mexer o corpo em nome da qualidade de vida (olha o Tio João Henrique, que corta o Alegre todo de bike para garantir que será um oitentão com boa saúde e gatíssimo). Muitos se rebelaram contra a ideia de que são pessoas paradas, cansadas e saudosista e estão botando para quebrar em bailes, cruzeiros e excursões especializadas neste publico. E, atenção herdeiros, foi-se o tempo que eles guardavam toda a grana da aposentadoria para deixar para os filhos. Com toda razão eles estão torrando a aposentadoria com “personal trainer” e viagens, aproveitando o tempo livre e a paz que conquistaram e, numa boa vão curtindo a vida com força.

Todo o meu respeito e admiração para os velhinhos que estão malhando, dançando, curtindo e colocando uma alegria extra na beleza poética de envelhecer com dignidade e saúde. Mas também há beleza naqueles que aceitam a passagem dos anos com a resignação e o orgulho de quem sabe que não tem mais nada a provar a ninguém (alias, nenhum de nós devia ter) e que a vida lhes deixou mais conscientes e generosos com as falhas alheias e as próprias. E tem a melhor parte dessa fase da vida, ao menos na minha opinião, as avós.

Dizem por aí que Vó é mãe com açúcar, a frase seria mais verdadeira se dissessem que vó é mãe com leite condensado. Eu vi e vejo as minhas avós vivendo a velhice com muita graça e doçura.

A minha Vó Mariinha era uma senhorinha muito linda, ela teve 15 filhos (isso mesmo 15, naquela época não tinha TV nem internet), perdeu 3 ainda novos, e ainda acolheu e criou um irmão, alguns sobrinhos e netos. Apesar de não ter estudado (o pai dela acreditava que se estudasse escreveria cartas para os namorados), sempre incentivou os filhos a estudarem e buscarem novos horizontes. E diferente da maioria das mulheres da sua geração, não encarava o casamento das filhas como uma carreira, pelo contrario, queria todas formadas e boas profissionais. Eu me lembro dela já com dificuldades para se locomover, estava sempre sentada na cadeira de balanço da varanda. Tinha horror de bebida, mas sempre guardava uma pinguinha para o papai (hoje ele vê como a vó tinha razão!). Ela achava que todo mundo era bom e dizia que não sentia gosto de nada, mas sempre reclamava que o adoçante era amargo ou que a comida estava sem sal. E, mesmo com as filhas já casadas, só as chamava de meninas. Ela aceitou os sinais do tempo com orgulho e dignidade, como um soldado que ganha uma medalha de honra e sabe que a merece, talvez porque soubesse em seu intimo que seu dever fora cumprido.

Há ainda a minha vó Mercedes, uma menina de 97 aninhos, muito teimosa. Ela criou apenas 09 filhos e uma neta (e que Deus a TV e o controle de natalidade). Foi mãe de leite de alguns e ajudava a abastecer o banco de leite do hospital de Alegre. Muito religiosa, enquanto podia ia a missa todos os dias, agora reza alguns rosários todos os dias por todos os filhos, netos, bisnetos, parentes e amigos. Quando eu era criança ela coava o feijão para que eu comesse só o caldinho com o angu mais gostoso do mundo. Lembro muito do fogão de lenha e do cheirinho bom da cozinha. Ela estava todo o tempo ali e sempre fazendo comida boa; podia ser só uma sopinha de macarrão ou o bife famoso da vó. Mesmo depois de adulta, antes de viajar para o Alegre, eu passava dias sonhando com a comidinha da Vó Merça, o bifinho passado na hora e o bolinho de chuchu. Hoje ela não cozinha mais. Muito travessa ela caiu e machucou as costelas, mas já está firme e vigilante no comando de seu reino. Minhas  tias tentam com muito amor reproduzir as receitas dela, principalmente o bolinho que adoro, mas ninguém tem o tempero da D. Mercedes.

É fato que todos temos uma certa resistência em aceitar os efeitos do tempo sobre nossos corpos, principalmente em nossos rostos. É bom tentar prevenir e fazer a juventude se estender um pouco mais. Mas deve-se entender que é uma batalha fadada ao fracasso, por mais que corramos o tempo fatalmente nos alcançará. Ademais, a única opção restante para quem não quer envelhecer de maneira nenhuma é morrer jovem e ser um belo cadáver. Não, obrigada! Prefiro a vida e não me importo nem um pouco com a aparência do meu rosto no meu funeral.

Este mês em que se comemora o dia da avó vamos olhar com mais carinho para as pessoas que chegaram à segunda infância e dedicar-lhes mais respeito por estarem vivendo essa fatia bonita da vida. De minha parte espero que eu chegue lá. Creio que serei uma velhinha serelepe, dessas bem “vida loca”, quem sabe entre os livros, aventuras, viagens e escritos (sim, espero escrever até morrer) eu não fuja para fazer a minha primeira tatuagem. Afinal, o meu pai velhinho e careta, faz cara feia até hoje toda vez que eu toco nesse assunto.

P.S.: Publicada em agosto de 2015.

Fica a dica: chuva + fim de semana = leitura

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Bom dia! Com este tempinho nada melhor que um livrinho e um chá embaixo de uma manta quentinha, então recomendo “O livro dos seres imaginários” do Jorge Luis Borges. A leitura é muito leve e fluida, no texto ele fala de vários seres lendários e mitológicos do mundo, é muito interessante. Eu já li e reli algumas vezes e é realmente uma delícia.

beijoooooooooooooooooooooooo

Sinopse: Ordenados alfabeticamente, como nas enciclopédias que tanto fascinavam Borges, desfilam diante do leitor os estranhos seres deste “manual de zoologia fantástica” (título da primeira edição desta obra, que saiu em 1957), sustentados pela complexa erudição borgiana, avalizada por seu domínio tanto das línguas clássicas como das modernas. Com freqüência, ele mergulha na etimologia para explicar animais exóticos como o cabisbaixo búfalo negro com cabeça de porco “catóblepa” (o que olha para baixo) e o da serpente de duas cabeças “anfibesna” (que vai em duas direções), ou mais familiares, como as valquírias (aquelas que escolhem os mortos) ou as fadas (do latim fatum, destino), entidades que intervêm nos assuntos dos homens. Mas a erudição não está a serviço da sisudez de um tratado acadêmico; ao contrário, contribui para o tom lúdico e bem humorado do livro. O próprio Borges diz no seu prólogo que gostaria que “os curiosos o freqüentassem como quem brinca com as formas cambiantes reveladas por um caleidoscópio”. E nessa brincadeira, ele faz uma homenagem à imaginação infinita dos homens, capaz de criar os seres mais curiosos e absurdos como sereias, unicórnios, centauros, hidras e dragões – e eventualmente acreditar neles -, animais que, como disse o crítico Alexandre Eulálio, “Borges acaricia passando preguiçosamente a mão complacente do dono”.

Vai um remedinho aí?

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Segundo o dicionário hipocondríaco é quem está sempre preocupado com a própria saúde, ouso discordar, a observação contínua me fez perceber que o hipocondríaco é preocupado com a doença ou doenças que julga ter.

Definida como transtorno psicológico, a famosa “mania de doença” é por demais comum nos dias atuais, e com a facilidade de adquirir medicamentos quase todo mundo anda com um arsenal farmacêutico na bolsa a ao sinal do mais leve incomodo se automedicam (ou medicam o colega ao lado: _ Vai um remedinho aí?) podemos vê-la em varias níveis de gravidade e em inúmeras pessoas de nosso convívio.

Conheço alguns casos bem graves, como uma amiga querida, que quando vai ao shopping vai primeiro a farmácia, deixando as demais lojas de lado. Ela lê pesquisas médicas na internet e cria novos hábitos de vida, supostamente para se manter longe doenças, à pouco tempo leu numa pesquisa que beijar na boca aumenta o risco de contrair meningite e ficou meses sem “pegar” ninguém. Faz teste para DST com uma frequência absurda sem ter vida sexual ativa e quando sabe de um novo exame, pra qualquer coisa, vai lá e faz, mesmo que precise pagar do próprio bolso, e pior, obriga os namorados a se submeterem a uma bateria de exames e depois não confia nos resultados.

Alias, ela está muito bem acompanhada, varias “celebridades” apresentam esta mania como Rei Henrique VIII, Charles Darwin, Mikael Jakson, Cameron Dias, Toquinho (dizem que por onde anda leva um saquinho de remédios consigo), já li que a atriz americana não toca em maçanetas de locais desconhecidos e que lava a mão incontáveis vezes ao dia para se livrar dos germes, e o que falar do Rei do Pop que chegou a usar mascaras (e obrigou os filhos a fazerem o mesmo) com medo de qualquer tipo de contaminação, mas tudo bem se você faz isso e é milionário, famoso ou estrela de cinema é exótico, para os demais mortais é esquisitice mesmo.

Um outro fato curioso sobre isso é que quem tem essa “mania” se acha médico, faz diagnóstico, exame físico (hoje em dia qualquer um tem “aparelho de aferir a pressão” e aquele outro que testa o nível da glicose em casa… deve ter quem ache divertido ficar se examinando) e receita remédio para si a para os outros, neste ultimo caso com comentários vívidos sobre a sua eficácia e efeitos colaterais, afinal todo bom hipocondríaco já provou algumas dúzias de medicamentos, tem a lista dos 10 melhores antibióticos.

É aquele tipo de pessoa que quando recebe do médico a feliz noticia de que não está doente se revolta, chama o médico de incompetente e louco, procura uma segunda, terceira ou décima sexta opinião, mas jamais se convence que está saudável, meu Tio Dr. João Henrique já deve ter visto muito isso. Haveria menos desperdício de energia se o primeiro médico pudesse receitar logo um placebo qualquer e deixar o “paciente feliz” com sua doença imaginária e pílulas de farinha.

Há ainda aqueles que transferem a obsessão para os filhos, a criança perde parte da infância porque a mãe “neurótica” diz que a pobrezinha não pode tomar vento, nem sol, nem sereno, ou gelado, não pode se sujar por causa dos germes, nem comer nada que não esteja lavado e esterilizado por causa dos vermes (e assim se cresce sem comer sequer uma jabuticaba direto do pé) nem pode se machucar, porque se chorar demais pode “engolir o folego”, seja lá o que isso for, ou seja não pode brincar, não pode viver a infância como se deve com os joelhos esfolados, a roupa suja de terra e só perdendo o folego de tanto correr dos coleguinhas, e daí se tiver um bicho de pé, ou lombriga, ou um resfriado as vezes, tem remédio para isso, mas não tem para tempo perdido.

Se forçamos a imaginação podemos ver em que tipo de adulto essa criança se tornará, depois de terem lhe infligido uma farta lista de fraquezas e deficiências, fazendo-a crer numa fragilidade extrema e inexistente, será um adulto fresco, com medo e nojo de tudo, mais uma farmácia ambulante, degustador de comprimidos e leitor assíduo de bulas, cheio de dores fantasmas pelo corpo que pulam de um membro a outro, alergias imaginárias e resfriados eternos, aquele tipo de pessoa que tem uma dorzinha na lombar a acha que está com falência renal.

Francamente, sempre que vejo alguém assim sinto muita pena, talvez porque seja triste pensar que tem gente que toma posse de doença quando tem tanta coisa melhor para se apoderar, ou porque seja chato demais quando o único assunto de alguém são doenças, sintomas, exames e remédios, quando tem tanta coisa melhor para se falar. Ou simplesmente, porque creio que todo hipocondríaco é pessimista, vê um lado ruim de tudo, alias só o lado ruim: do tempero da comida (problema nos rins ou no sangue ou…), da terra do jardim (vermes/germes), das pessoas do mundo, da brisa do mar, até do sol, falarão “causa câncer de pele”. Direi e daí? Ele dá luz e vida a tudo que há de lindo no mundo e, desde que inventaram o filtro solar, não causa nem queimadura de segundo grau, não vou deixar de fazer o que me dá prazer, afinal a doença futura é uma possibilidade, mas a vida e o presente são uma certeza.