Poesia para o Dia das mães (atrasado)

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Ontem foi o dia das mães e eu não postei nada porquê passei o dia curtindo a minha mãe (fotinho acima da mamãe e da minha vovó).

Mãe que é algo que Deus deve ter feito em uma manhã inspirada, porque de todos no mundo elas são as únicas que realmente tem super poderes: dissipam o medo com um colinho, saram dodóis com beijinho, afastam a insônia quando dormem conosco, fazem a melhor comida do mundo mesmo quando não sabem cozinhar. Então aí vai o que um de meus poetas favoritos falou sobre as mamães.

MINHA MÃE

Rio de Janeiro , 1933

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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Fica a dica: Livro Crônica de uma morte anunciada do Gabo

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Eu amo realismo fantástico e amo mais ainda Gabriel García Márquez, acho que ele escreve de uma forma leve e fluida que torna a leitura muito prazerosa. Este livro, especificamente, foi lançado em 1981, é bem fininho e dá para ler bem rápido e é uma delícia. Com esse friozinho (por aqui estava 18º ontem) e um chocolate quente é uma ótiam pedida.

Ele fala da morte de Santiago Nasar logo nas primeiras linhas da história. Toda a cidade sabe quem quer matá-lo e o porquê, mas ninguém o salva e como isso acontece é a grande magia do Gabo no texto, pois ele sobrepõe varias versões e histórias sobre o ultimo dia de vida da vítima.

Viver é um salto de fé

Publicado em Junho de 2017 no jornal A Palavra.

O meio do ano chegou ainda com cara de fevereiro, com uma sensação de que as coisas não estão indo em frente, mas pelo menos parece que o friozinho chegou, com todas as suas delicias, sopas, caldos, chás, tudo quentinho e aconchegante. Os dias são mais curtos nesta época, mas nem por isso fica mais fácil acordar cedo, alias é muito difícil deixar o conforto quentinho da cama nos dias frios. E para sentir um pouquinho mais de frio eu viajei para São Paulo com uma amiga, e percebi primeiro que reclamar virou esporte e, segundo, desconfiar de tudo torna a vida muito difícil.

Vou explicar: quando eu quero chegar a algum lugar e não sei o caminho, eu simplesmente saiu perguntando de esquina em esquina até chegar lá. Desta  vez não foi assim. Sempre que eu não sabia para onde ir a minha amiga sacava o celular e ia procurar o caminho no google maps.

Esse processo, é chato, demorado, depende do sinal de internet e, ao menos para mim é confuso. Eu fui me informar com ela porque não perguntar o caminho às pessoas, ao que ela responde:”_ As pessoas dão informações erradas de propósito e poderemos ir parar em um local perigoso.” Por que? Perguntei. Alias vários porquês aqui. Porque alguém faria isso gratuitamente? O que ganhariam com isso? Porque desconfiar tanto dos outros? Porque tanto medo? Porque partir da premissa pessimista de que todo mundo é mal ou desonesto?

E não foi só isso. Ela memorizou o mapa das ruas mais problemáticas, vetou o meu concerto de musica clássica na Sala são Paulo (local perigoso), ficava olhando da janela do taxi procurando pessoas suspeitas, além de exibir o mapinha do celular sempre aberto, enquanto eu colocava a cara para fora da janela para ver melhor a paisagem, pior quando agarrava-se a bolsa quando identificava alguém “suspeito” do lado oposto. Às vezes a pessoa percebe, e até se ofende. E quase não fomos à missa no mosteiro. Tenha dó. Estávamos indo assistir a missa. Deus protege, principalmente os ingênuos e tolos como eu.

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É a vó!!!!

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Li, esses dias na internet, um texto que dizia “Vovó de 79 anos desaparece de asilo para fazer a  primeira tatuagem”. Achei, interessante porque dizem que a velhice é a segunda infância, mas no caso dessa senhorinha “vida loca”, talvez seja a segunda adolescência. Na verdade havia pensado nisso há algumas semanas, quando compareci a rotineira consulta à dermatologista. Não nego procuro me prevenir contra câncer de pele e das ruguinhas podem aparecer com a idade. Utilizo-me de um ácido aqui, um creminho para os olhos ali, enfim, ponho em campo  minhas parcas armas na guerra contra a passagem do tempo. Incrível como tentamos controlar o incontrolável; afinal, existem três coisas que não podemos controlar: a morte, o outro e o decurso implacável do tempo.

O arsenal disponível para essa guerra é ilimitado: vai desde dietas e vitaminas a cirurgias arriscadas e invasivas para esticar a cara. Nesse campo de batalha o bom senso é fundamental e aquela máxima de “menos é mais” se aplica muito bem. O mundo das celebridades está cheio de exemplos de como os exageros em procedimentos estéticos podem ser desastrosos. Tem gente que morreu em cirurgias plásticas e também os deformados pelo botox como a Meg Ryan, que era lindíssima e agora parece o Coringa. Assim, perde-se a beleza do rosto, do corpo e a serenidade de uma velhice altiva de quem já consolidou a paz e a estima dentro de si.

É um fato que a noção de envelhecimento mudou muito nas ultimas décadas. Quando criança a imagem que tinha dos idosos era bem diferente do que vejo hoje: eram pessoas de cabelos brancos, andando bem devagar e usando meias com sandálias. Os vovozinhos sentados na praça lendo jornal ou jogando baralho e falando com saudades da Era Vargas, como meu Vô Durval. E as vovozinhas que ficavam na varanda fazendo tricô ou cozinhando coisas gostosas. Nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, imaginei uma daquelas velhinhas doces saindo por aí para fazer uma tatoo.

As coisas mudaram. O pessoal da terceira idade está mandando ver nos exercícios no calçadão e nos esportes radicais, lendo jornais no tablet, jogando xadrez virtual, alguns presenteando o mercado de trabalho com sua sabedoria e experiência. Eles recusaram drasticamente o paradigma anterior e estão se aventurando por aí pulando de paraquedas, voando de parapente, deixando as sandálias de lado e usando botas de trekking, literalmente colocando o pé na estrada ou no mato (por favor, sem duplo sentido!).

A galera da “melhor idade” redescobriu a vida, levantou-se das cadeiras de balanço e começaram a mexer o corpo em nome da qualidade de vida (olha o Tio João Henrique, que corta o Alegre todo de bike para garantir que será um oitentão com boa saúde e gatíssimo). Muitos se rebelaram contra a ideia de que são pessoas paradas, cansadas e saudosista e estão botando para quebrar em bailes, cruzeiros e excursões especializadas neste publico. E, atenção herdeiros, foi-se o tempo que eles guardavam toda a grana da aposentadoria para deixar para os filhos. Com toda razão eles estão torrando a aposentadoria com “personal trainer” e viagens, aproveitando o tempo livre e a paz que conquistaram e, numa boa vão curtindo a vida com força.

Todo o meu respeito e admiração para os velhinhos que estão malhando, dançando, curtindo e colocando uma alegria extra na beleza poética de envelhecer com dignidade e saúde. Mas também há beleza naqueles que aceitam a passagem dos anos com a resignação e o orgulho de quem sabe que não tem mais nada a provar a ninguém (alias, nenhum de nós devia ter) e que a vida lhes deixou mais conscientes e generosos com as falhas alheias e as próprias. E tem a melhor parte dessa fase da vida, ao menos na minha opinião, as avós.

Dizem por aí que Vó é mãe com açúcar, a frase seria mais verdadeira se dissessem que vó é mãe com leite condensado. Eu vi e vejo as minhas avós vivendo a velhice com muita graça e doçura.

A minha Vó Mariinha era uma senhorinha muito linda, ela teve 15 filhos (isso mesmo 15, naquela época não tinha TV nem internet), perdeu 3 ainda novos, e ainda acolheu e criou um irmão, alguns sobrinhos e netos. Apesar de não ter estudado (o pai dela acreditava que se estudasse escreveria cartas para os namorados), sempre incentivou os filhos a estudarem e buscarem novos horizontes. E diferente da maioria das mulheres da sua geração, não encarava o casamento das filhas como uma carreira, pelo contrario, queria todas formadas e boas profissionais. Eu me lembro dela já com dificuldades para se locomover, estava sempre sentada na cadeira de balanço da varanda. Tinha horror de bebida, mas sempre guardava uma pinguinha para o papai (hoje ele vê como a vó tinha razão!). Ela achava que todo mundo era bom e dizia que não sentia gosto de nada, mas sempre reclamava que o adoçante era amargo ou que a comida estava sem sal. E, mesmo com as filhas já casadas, só as chamava de meninas. Ela aceitou os sinais do tempo com orgulho e dignidade, como um soldado que ganha uma medalha de honra e sabe que a merece, talvez porque soubesse em seu intimo que seu dever fora cumprido.

Há ainda a minha vó Mercedes, uma menina de 97 aninhos, muito teimosa. Ela criou apenas 09 filhos e uma neta (e que Deus a TV e o controle de natalidade). Foi mãe de leite de alguns e ajudava a abastecer o banco de leite do hospital de Alegre. Muito religiosa, enquanto podia ia a missa todos os dias, agora reza alguns rosários todos os dias por todos os filhos, netos, bisnetos, parentes e amigos. Quando eu era criança ela coava o feijão para que eu comesse só o caldinho com o angu mais gostoso do mundo. Lembro muito do fogão de lenha e do cheirinho bom da cozinha. Ela estava todo o tempo ali e sempre fazendo comida boa; podia ser só uma sopinha de macarrão ou o bife famoso da vó. Mesmo depois de adulta, antes de viajar para o Alegre, eu passava dias sonhando com a comidinha da Vó Merça, o bifinho passado na hora e o bolinho de chuchu. Hoje ela não cozinha mais. Muito travessa ela caiu e machucou as costelas, mas já está firme e vigilante no comando de seu reino. Minhas  tias tentam com muito amor reproduzir as receitas dela, principalmente o bolinho que adoro, mas ninguém tem o tempero da D. Mercedes.

É fato que todos temos uma certa resistência em aceitar os efeitos do tempo sobre nossos corpos, principalmente em nossos rostos. É bom tentar prevenir e fazer a juventude se estender um pouco mais. Mas deve-se entender que é uma batalha fadada ao fracasso, por mais que corramos o tempo fatalmente nos alcançará. Ademais, a única opção restante para quem não quer envelhecer de maneira nenhuma é morrer jovem e ser um belo cadáver. Não, obrigada! Prefiro a vida e não me importo nem um pouco com a aparência do meu rosto no meu funeral.

Este mês em que se comemora o dia da avó vamos olhar com mais carinho para as pessoas que chegaram à segunda infância e dedicar-lhes mais respeito por estarem vivendo essa fatia bonita da vida. De minha parte espero que eu chegue lá. Creio que serei uma velhinha serelepe, dessas bem “vida loca”, quem sabe entre os livros, aventuras, viagens e escritos (sim, espero escrever até morrer) eu não fuja para fazer a minha primeira tatuagem. Afinal, o meu pai velhinho e careta, faz cara feia até hoje toda vez que eu toco nesse assunto.

P.S.: Publicada em agosto de 2015.

Fica a dica: chuva + fim de semana = leitura

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Bom dia! Com este tempinho nada melhor que um livrinho e um chá embaixo de uma manta quentinha, então recomendo “O livro dos seres imaginários” do Jorge Luis Borges. A leitura é muito leve e fluida, no texto ele fala de vários seres lendários e mitológicos do mundo, é muito interessante. Eu já li e reli algumas vezes e é realmente uma delícia.

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Sinopse: Ordenados alfabeticamente, como nas enciclopédias que tanto fascinavam Borges, desfilam diante do leitor os estranhos seres deste “manual de zoologia fantástica” (título da primeira edição desta obra, que saiu em 1957), sustentados pela complexa erudição borgiana, avalizada por seu domínio tanto das línguas clássicas como das modernas. Com freqüência, ele mergulha na etimologia para explicar animais exóticos como o cabisbaixo búfalo negro com cabeça de porco “catóblepa” (o que olha para baixo) e o da serpente de duas cabeças “anfibesna” (que vai em duas direções), ou mais familiares, como as valquírias (aquelas que escolhem os mortos) ou as fadas (do latim fatum, destino), entidades que intervêm nos assuntos dos homens. Mas a erudição não está a serviço da sisudez de um tratado acadêmico; ao contrário, contribui para o tom lúdico e bem humorado do livro. O próprio Borges diz no seu prólogo que gostaria que “os curiosos o freqüentassem como quem brinca com as formas cambiantes reveladas por um caleidoscópio”. E nessa brincadeira, ele faz uma homenagem à imaginação infinita dos homens, capaz de criar os seres mais curiosos e absurdos como sereias, unicórnios, centauros, hidras e dragões – e eventualmente acreditar neles -, animais que, como disse o crítico Alexandre Eulálio, “Borges acaricia passando preguiçosamente a mão complacente do dono”.

Vai um remedinho aí?

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Segundo o dicionário hipocondríaco é quem está sempre preocupado com a própria saúde, ouso discordar, a observação contínua me fez perceber que o hipocondríaco é preocupado com a doença ou doenças que julga ter.

Definida como transtorno psicológico, a famosa “mania de doença” é por demais comum nos dias atuais, e com a facilidade de adquirir medicamentos quase todo mundo anda com um arsenal farmacêutico na bolsa a ao sinal do mais leve incomodo se automedicam (ou medicam o colega ao lado: _ Vai um remedinho aí?) podemos vê-la em varias níveis de gravidade e em inúmeras pessoas de nosso convívio.

Conheço alguns casos bem graves, como uma amiga querida, que quando vai ao shopping vai primeiro a farmácia, deixando as demais lojas de lado. Ela lê pesquisas médicas na internet e cria novos hábitos de vida, supostamente para se manter longe doenças, à pouco tempo leu numa pesquisa que beijar na boca aumenta o risco de contrair meningite e ficou meses sem “pegar” ninguém. Faz teste para DST com uma frequência absurda sem ter vida sexual ativa e quando sabe de um novo exame, pra qualquer coisa, vai lá e faz, mesmo que precise pagar do próprio bolso, e pior, obriga os namorados a se submeterem a uma bateria de exames e depois não confia nos resultados.

Alias, ela está muito bem acompanhada, varias “celebridades” apresentam esta mania como Rei Henrique VIII, Charles Darwin, Mikael Jakson, Cameron Dias, Toquinho (dizem que por onde anda leva um saquinho de remédios consigo), já li que a atriz americana não toca em maçanetas de locais desconhecidos e que lava a mão incontáveis vezes ao dia para se livrar dos germes, e o que falar do Rei do Pop que chegou a usar mascaras (e obrigou os filhos a fazerem o mesmo) com medo de qualquer tipo de contaminação, mas tudo bem se você faz isso e é milionário, famoso ou estrela de cinema é exótico, para os demais mortais é esquisitice mesmo.

Um outro fato curioso sobre isso é que quem tem essa “mania” se acha médico, faz diagnóstico, exame físico (hoje em dia qualquer um tem “aparelho de aferir a pressão” e aquele outro que testa o nível da glicose em casa… deve ter quem ache divertido ficar se examinando) e receita remédio para si a para os outros, neste ultimo caso com comentários vívidos sobre a sua eficácia e efeitos colaterais, afinal todo bom hipocondríaco já provou algumas dúzias de medicamentos, tem a lista dos 10 melhores antibióticos.

É aquele tipo de pessoa que quando recebe do médico a feliz noticia de que não está doente se revolta, chama o médico de incompetente e louco, procura uma segunda, terceira ou décima sexta opinião, mas jamais se convence que está saudável, meu Tio Dr. João Henrique já deve ter visto muito isso. Haveria menos desperdício de energia se o primeiro médico pudesse receitar logo um placebo qualquer e deixar o “paciente feliz” com sua doença imaginária e pílulas de farinha.

Há ainda aqueles que transferem a obsessão para os filhos, a criança perde parte da infância porque a mãe “neurótica” diz que a pobrezinha não pode tomar vento, nem sol, nem sereno, ou gelado, não pode se sujar por causa dos germes, nem comer nada que não esteja lavado e esterilizado por causa dos vermes (e assim se cresce sem comer sequer uma jabuticaba direto do pé) nem pode se machucar, porque se chorar demais pode “engolir o folego”, seja lá o que isso for, ou seja não pode brincar, não pode viver a infância como se deve com os joelhos esfolados, a roupa suja de terra e só perdendo o folego de tanto correr dos coleguinhas, e daí se tiver um bicho de pé, ou lombriga, ou um resfriado as vezes, tem remédio para isso, mas não tem para tempo perdido.

Se forçamos a imaginação podemos ver em que tipo de adulto essa criança se tornará, depois de terem lhe infligido uma farta lista de fraquezas e deficiências, fazendo-a crer numa fragilidade extrema e inexistente, será um adulto fresco, com medo e nojo de tudo, mais uma farmácia ambulante, degustador de comprimidos e leitor assíduo de bulas, cheio de dores fantasmas pelo corpo que pulam de um membro a outro, alergias imaginárias e resfriados eternos, aquele tipo de pessoa que tem uma dorzinha na lombar a acha que está com falência renal.

Francamente, sempre que vejo alguém assim sinto muita pena, talvez porque seja triste pensar que tem gente que toma posse de doença quando tem tanta coisa melhor para se apoderar, ou porque seja chato demais quando o único assunto de alguém são doenças, sintomas, exames e remédios, quando tem tanta coisa melhor para se falar. Ou simplesmente, porque creio que todo hipocondríaco é pessimista, vê um lado ruim de tudo, alias só o lado ruim: do tempero da comida (problema nos rins ou no sangue ou…), da terra do jardim (vermes/germes), das pessoas do mundo, da brisa do mar, até do sol, falarão “causa câncer de pele”. Direi e daí? Ele dá luz e vida a tudo que há de lindo no mundo e, desde que inventaram o filtro solar, não causa nem queimadura de segundo grau, não vou deixar de fazer o que me dá prazer, afinal a doença futura é uma possibilidade, mas a vida e o presente são uma certeza.

Me devolve meus 10 reais…. pão duro irrita!

Em uma dessas noites frias de julho enquanto eu me revirava sob as cobertas, tentando em vão e mais uma vez lutar com a insônia (inimiga antiga), inúmeros pensamentos e preocupações se revezavam em minha mente. Então, finalmente, desisti de tentar dormir, fui a cozinha preparar um bom chá. Fervi á água, coloquei o pequeno saquinho na água escaldante sentindo o cheiro doce o hortelã se espalhar pela cozinha. Pensei, então, um dia devo escrever sobre a insônia, peguei o sachê de adoçante rasguei-o, mas antes de derramá-lo no chá comecei a rir, rir muito e alto. Lá estava eu sozinha, de pijama, no meio da noite, parecendo uma louca, morrendo de rir na minha cozinha.

O que aconteceu foi que quando apanhei o sachê de adoçante me lembrei de um velho conhecido muito pão duro que sempre que eu encontrava em um restaurante ou cafeteria. Ele sorrateiramente surrupiava todos os sachês de adoçante, açúcar, sal, maionese e o que mais houve em cima da mesa, era uma situação embaraçosa, mas hilária também.

Todo nós conhecemos alguém com esse “defeito” ou característica, um unha de fome, aquela pessoa que parece que tem um escorpião no bolso. Atentem, existe uma diferença enorme entre o pão duro e o duro, o primeiro tem dinheiro e não quer gastar nem consigo mesmo, já o segundo, bem o nome já diz tudo, é aquela pessoa que tem mês demais para pouco salário.

A pessoa sovina incomoda, irrita e às vezes até revolta quem está perto. Eu tive um namorado assim e conheço um punhado de gente do tipo “Senhor Scrooge”. Acredite, é difícil de aturar, aquela desculpa esfarrapada de “esqueci a carteira” pela centésima quinta vez. Um dia deixei, só de raiva, meu ex-namorado com fome, me olhando lanchar com meu afilhado. Nada lhe ofereci. Afinal nesta época eu era estudante e ela já trabalhava. Que sacanagem!

Percebi que todo mundo tem uma ou duas manias de muquirana. Entre elas colocar água no shampoo ou detergente para durar mais; fazer aquele bolinho com o arroz de ontem; estacionar fora do shopping para não pagar o estacionamento; esperar uma boa liquidação para comprar aquela peça que você está “namorando” na vitrina a um mês; deixar o carro “na banguela” na descida para economizar gasolina; pegar aquele finzinho do sabonete (que tá fininho como um papelão e nem dá espuma mais) derreter e juntar com outros ou usar para lavar a roupa; transformar aquela camiseta velha em pano de chão (isso está mais para Lei de Lavoisier, igual aquele mexidão delicioso com tudo que sobrou do almoço). Mas apresentar uma ou duas manias não te qualifica como pão duro, tem todo um estilo de vida, uma teia de desculpas para não gastar nem um tostãozinho.

Eu me lembro de uma amiga, que sempre ao sairmos, no final da noite, ela sacava de uma calculadora e dividia a conta até os últimos centavos, não importa se haviam duas ou dez pessoas à mesa. Nunca entendi isso e sempre me pareceu grosseiro, quer dizer pagar alguns centavos a mais que o amigo ao lado, vai mesmo te deixar mais pobre? Mesmo quando a noite era ótima cheia de risadas, “causos” e conselhos a magia do momento caia por terra diante da maldita calculadora. Isso me deixava revoltada. O curioso é que a mão de vaca sempre tinha as moedinhas na bolsa para não correr o risco de deixar nem cinco centavos para ninguém.

Convivendo com estas pessoas notei que alguns comportamentos são ilógicos, mas constantes e sempre “justificáveis”, como por exemplo: coar o café duas vezes com o mesmo pó (isso eu já vi!); usar camisa furada e dizer que é porque gosta; jantar antes de sair pra não ter que pedir nada no barzinho e não aumentar a conta; escolher o presente mais ordinário e barato da loja e dizer que é mais singelo; dar um toque no celular alheio só pro outro retornar a ligação (mesmo com promoção da operadora de “custo zero na chamada”); comer e beber até passar mal nas festas só porque é boca livre; sair da mesa na hora que chega a conta rezando para que algum gentil desprevenido pague tudo; não ligar o ar condicionado do carro, no verão abrasador de Vitória para gastar menos gasolina; ou deixar o carro ficar na reserva uma semana e depois colocar R$ 10,00 no tanque; emprestar 10 reais a alguém e já no outro dia sair cobrando como se fossem 10 milhões; “filar” comida todo dia na casa alheia (poxa, ou a criatura faz a própria comida ou vai ao restaurante, né?); nunca andar com a carteira ou o cartão de crédito para que os outros paguem sozinhos e por aí vai.

Eu imagino que lendo isto cada pessoa consegue lembrar de um pão duro incorrigível, aquele mesmo que  toda família tem, é engraçado sim até porque a maioria das “economias” não fazem sentido algum, como uma pessoa que conheço que toma banho frio no inverno, mesmo pagando a taxa mínima de luz todo mês. Será que faria diferença um banho quente? Ou uma tia velhinha que deixa todas as luzes apagadas para não gastar energia, com risco de cair e tropeçar, economia em detrimento da saúde e segurança? Ou mesmo o hábito, já citado, de afanar saches de adoçante, cadê a grande economia? E com o tempo cafeteria passa a oferecer só o adoçante liquido. Outra é a mania de usar roupas velhas ou de comprar a peça mais baratinha mesmo que o caimento seja péssimo ou a qualidade do tecido seja baixíssima, fica feio demais e o prejuízo a imagem é imensamente maior que o do bolso.

E reparem que o verdadeiro mão de vaca não admite se desfazer de nada que tem, mesmo que a troca seja vantajosa, mesmo que o objeto esteja inutilizado. São acumuladores, se apegam até a embalagens vazias, ou tem tanta usura para consumir um produto que por medo de gastar, por fim expira a validade sem aproveitamento. Eles se apegam a objetos como se fossem pessoas. Alguns chegam ao ponto de serem miseráveis com o dinheiro alheio, principalmente dos pais, uma pessoa que conheci desencorajava os pais a viajarem e a gastarem com carros caros, para sobrar mais para a herança, isso é de doer.

E, ainda, tem aquele tipo de somítico, que tenta tirar vantagem de toda e qualquer situação, seja para ganhar uma “jantinha” grátis seja para tentar superfaturar em qualquer transação financeira. Esse é o pão duro mal caráter, talvez o ultimo estagio desse cancro espiritual, em que se sacrifica a honra, o brio, o inestimável por uns trocados a mais, é aquela pessoa que quando recebe o troco a mais em qualquer lugar fica tão feliz que parece que encontrou o santo graal.

Se você observar bem os avarentos nota-se que muitas atitudes parecem involuntárias, é como se a pessoa vivesse no “modo automático” da mesquinharia, algumas coisas simplesmente não farão diferença no saldo do mês, como afanar o adoçante, ou colocar só aquela mixaria de gasolina no carro, mas ele continua. E se alguém critica, fica bravo, vira a cara e se acha cheio de razão com uns trocadinhos a mais e uma amizade a menos. Aparentemente essa obsessão por acumular/guardar dinheiro está mais ligada à sensação de não se desfazer de bens do que a economia em si, talvez dê a pessoa uma sensação segurança ou de poder, por conseguir controlar alguma parte de sua vida.

A avareza é a filha predileta do egoísmo, a consequência visível e feia da incapacidade de se olhar para qualquer lugar que não seja o próprio umbigo e da crença estupida de que cada um deve cuidar somente de si mesmo e o resto do mundo que se dane. É mais um fruto podre da cultura medíocre de tentar levar vantagem em tudo, que tenta a todo custo matar o altruísmo. Não há como inserir momentos, amizades ou demonstrações de afeto no cômputo bancário. Fazer isso é diminuí-los, reduzir sentimentos a valores é ofensivo, por isso ninguém gosta de convidar o pão duro para sair.

E se nada disso bastar, para que os unhas de fome de plantão comecem a refletir: a usura é um dos sete pecados capitais, uma passagem sem bagagem para o “mármore do inferno” e como diz o dito popular: “caixão não tem gaveta”. Então, meu caro mão de vaca, tudo que você guardou, se privando de vários prazeres e irritando várias pessoas, ficará aqui de herança para os parentes que você critica por serem gastadores. E por fim, na minha humilde opinião, se for para pecar, por favor, pequem pelo prazer, pela diversão, pelo gozo, e não pela falta dele, isso te poupará muito… arrependimento.